Anderson Nunes de Carvalho Vieira

Em 10 anos, o mundo poderá não ter produção de alimentos suficiente para sustentar o crescimento populacional

Em 2027, o mundo pode enfrentar um déficit de 214 trilhões de calorias, diz Sara Menker, fundadora e chefe-executiva da Gro Intelligence, uma empresa de tecnologia de informação agrícolas. Em outras palavras, em apenas uma década, não teremos comida suficiente para alimentar o planeta.

Sabemos há muito tempo que podemos chegar a um ponto em que teremos mais pessoas do que a comida para sustentá-las. Em 2050, a população mundial deverá atingir 9,1 bilhões, e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) prevê que nesse ponto, o mundo precisaria produzir mais 70% de alimento do que hoje para alimentar todas essas pessoas. Esse prazo de 2050 é geralmente citado por cientistas e organizações como a FAO e a Oxfam como o ano em que o mundo ficará sem comida suficiente.

Mas o problema com isso e a maioria das avaliações da insegurança alimentar, diz Menker, é que ele usa massa e peso e não valor nutricional. "Por que falamos de alimentos em termos de peso?", Menker perguntou recentemente no segundo evento TEDGlobal em Arusha, na Tanzânia. "Porque é fácil. Mas o que deveria nos preocupar com os alimentos é o valor nutricional. Nem todos os alimentos são criados iguais, mesmo que eles pesem o mesmo", diz.

Ela argumenta que, se você olhar para o valor nutricional da produção atual de alimentos, a segurança alimentar global já é mais tênue do que pensamos. Além disso, o crescimento populacional e econômico na China, na Índia e nos países africanos irá agravar essa tendência, pois continuam a crescer como importadores líquidos de alimentos. No ano 2023, Menker diz, é o ponto de cruzamento para o crescimento populacional nestas três áreas.

Em 2023, a população na China, Índia e África se combinará para formar mais da metade da população mundial. A África já tem que importar alimentos, e em 2023, a Índia, que atualmente não importa alimentos, terá que começar. Na China, o crescimento da população acabará por se estabilizar, mas a ingestão global de calorias no país continuará a aumentar até o início dos anos 2020, diz Menker. Nos últimos anos, as pessoas na China começaram a adicionar mais e mais carne - e especialmente carne vermelha - um alimento muito rico em calorias para suas dietas. Menker prevê que mais e mais pessoas na China exigirão esse tipo de dieta rica em calorias.

Em 2023, mesmo que todo o excedente proveniente de países da Europa, América do Norte e do Sul fosse exclusivamente exportado para a China, a Índia e a África, ainda não seria suficiente, diz Menker. Quatro anos depois, Menker prevê, haverá uma falta de comida de 214 trilhões de calorias. Menker compara isso com as calorias fornecidas por 379 bilhões de hambúrgueres Big Mac - mais do que o McDonald's produziu em toda a sua existência.

Menker, uma ex-comerciante de commodities, iniciou a Gro Intelligence para fornecer aos indivíduos, governos e empresas informações sobre agricultura, rastreamento de dados, padrões de clima e dinâmica de preços. Ela tem algumas soluções para evitar a próxima crise: reformar as indústrias agrícolas na África e na Índia, mudando a forma como os agricultores cultivam, como as pessoas compram e consumem alimentos, diminuir o desperdício de alimentos, melhor a infra-estrutura e aumentar exponencialmente a produtividade nas fazendas. Ela também enfatiza a importância dos dados para informar e influenciar este processo de tomada de decisão.

"Pela primeira vez, a ferramenta mais crítica para o sucesso na indústria - dados e conhecimento - está se tornando mais barata por dia. E muito em breve, não importa quanto dinheiro você possui, para tomar decisões ótimas e maximizar a probabilidade de sucesso para alcançar o objetivo pretendido", disse Menker."Nós temos a solução. Nós só precisamos agir sobre isso", completa.

Código Florestal brasileiro é um dos mais rigorosos do mundo

A Apex-Brasil, juntamente com o Núcleo de Avaliações de Políticas Climáticas (NAPC) da PUC-RJ e a Sociedade Rural Brasileira (SRB) lançaram o estudo “Legislação florestal e de uso da terra: uma comparação internacional entre Argentina, Brasil, Canadá, China, França, Alemanha e Estados Unidos”, um trabalho meticuloso que pode favorecer a construção de uma imagem positiva do agronegócio do país no exterior.

O principal objetivo deste estudo, desenvolvido por pesquisadoras do CPI / NAPC, é mostrar, sobretudo, o que significa a implementação efetiva do Código Florestal brasileiro se comparado às exigências legais de outros países.

A pesquisa concluiu que o Brasil é um dos países que possui as regras mais rígidas de proteção de Áreas de Preservação Permanente (PPA) do mundo, uma confirmação do esforço que o Brasil vem fazendo para atingir metas de restauração e preservação de florestas que se comprometeu a cumprir no âmbito do Acordo Climático de Paris.

Para Juliano Assunção, diretor executivo do CPI e autor do estudo, o Brasil e seu setor agropecuário devem aproveitar o fato do Código Florestal ser um elemento diferenciador da produção para conquistar espaço nas negociações comerciais. "Não tenho dúvidas de que uma legislação como a nossa pode servir de discurso para conquista de mercados", diz Assunção.

"Este estudo confirma nossa avaliação de que temos a legislação florestal mais restritiva entre os grandes produtores de alimentos. Devemos levar esta mensagem ao consumidor mundial e ao brasileiro para que avaliem adequadamente nossa produção", diz o presidente da SRB, Marcelo Vieira.

Para o presidente da Apex-Brasil, embaixador Roberto Jaguaribe, o Código Florestal brasileiro representa uma evolução significativa do marco legal que estabelece normas específicas para o cultivo ambientalmente responsável. “Nada mais estratégico do que poder dispor de um estudo que ampare essa questão e aponte a sustentabilidade como um atualíssimo e poderoso atributo de competitividade do Brasil no mercado global”, pontua.

O custo privado da proteção de florestas em terras privadas

Ninguém investe mais recursos próprios na preservação do meio ambiente do que o agricultor brasileiro. Os dados do Cadastro Ambiental Rural (CAR), exigido dos produtores rurais, comprovaram seu papel único e decisivo na manutenção da vegetação nativa e da biodiversidade.

Mais de 4,3 milhões de imóveis rurais já se cadastraram no CAR. E a superfície cadastrada já ultrapassou a área da agricultura registrada no último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) disponível, o de 2006. Com base em imagens de satélite com cinco metros de detalhe, os produtores delimitaram seus imóveis e mapearam todas as áreas dedicadas à preservação da vegetação nativa e diversas outras situações. Surgiu um banco de dados geocodificados inédito e enorme sobre o patrimônio ambiental existente em cada imóvel rural, município, Estado, bioma e no País.

A dimensão desse patrimônio é conhecida graças ao trabalho do Grupo de Inteligência Territorial Estratégica da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), localizado em Campinas (SP). Uma equipe de pesquisadores e analistas desenvolveu métodos e tratou bilhões de dados, mapeando e calculando com detalhe o total de áreas dedicadas à preservação permanente, à reserva legal e a diversos remanescentes de vegetação nativa, em cada um dos municípios do Brasil. Os resultados numéricos e cartográficos são públicos, estão disponíveis para consulta no site da Embrapa (www.embrapa.br/projetos/car), 24 horas por dia, sete dias por semana.

Em janeiro deste ano, sem incluir ainda os dados dos Estados de Mato Grosso do Sul e do Espírito Santo, os produtores dedicavam à preservação da vegetação nativa 176,8 milhões de hectares em todo o Brasil. Em média, 47,7% da área dos imóveis rurais são reservados para preservação da vegetação nativa e da biodiversidade. Isso equivale a 20,5% do território nacional. Todas as unidades de conservação (parques nacionais e estaduais, estações ecológicas, florestas nacionais, etc.) protegem 13,1% do Brasil.

A área dedicada à preservação da vegetação nativa pelos agricultores brasileiros é maior do que a superfície de qualquer país da União Europeia ou da América Latina (exceto a Argentina). Essa área representa três vezes a da França e cinco vezes a da Alemanha, por exemplo. E esses números deverão aumentar ainda mais com a inclusão, em breve, dos dados de Mato Grosso do Sul e do Espírito Santo.

No total, o Brasil ainda mantém 66,3% de seu território dedicado à preservação e proteção da vegetação nativa. Desse número, a agricultura garante um terço. Se agregada a vegetação conservada em pastagens nativas do Pantanal, do Pampa, da Caatinga e de campos de altitude, temos cerca de 30% do território nacional preservado pelos agricultores. Em janeiro de 2018 atualizaremos esses dados com os cadastros adicionais no CAR realizados ao longo deste ano.

Grande parte desses resultados ambientais, tão positivos, se deve ao novo Código Florestal, aprovado em 2012 e atualmente questionado por ações diretas de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal (STF).

Um cálculo com base no valor médio da terra em cada município brasileiro, realizado pela mesma equipe da Embrapa, indica que o patrimônio imobilizado nas áreas dedicadas à preservação nos imóveis rurais se situa entre R$ 1,2 trilhão e R$ 2,9 trilhões! Que outra categoria profissional ou agente econômico no Brasil imobiliza e dedica tal patrimônio privado à preservação ambiental?

A manutenção dessas áreas traz custos constantes para o produtor rural: instalação e conservação de cercas para impedir a entrada de animais domésticos; implantação de aceiros para protegê-las do fogo; vigilância dedicada a impedir a retirada ilegal de madeira, a caça e outras atividades de invasores; colocação de placas e de sinalização; plantio de espécies nativas, etc. Qual categoria profissional ou agente econômico no Brasil assume gastos tão frequentes, para não dizer perenes, com preservação ambiental?

Preservar essas áreas também implica renunciar a boa parte do seu potencial produtivo. Quantos empregos, alimentos, riqueza e impostos deixam de ser gerados com a imobilização dessas áreas? Estudos da Embrapa e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) avaliarão e calcularão esses aspectos. Assim, o Brasil e o mundo terão uma ideia daquilo a que o povo brasileiro renuncia em termos de desenvolvimento em prol do meio ambiente. Ninguém defende o desmatamento dessas áreas, mas a dimensão econômica e financeira do esforço dos produtores rurais precisa ser conhecida, compensada e incentivada pela sociedade.

Os mais de 176 milhões de hectares dedicados à preservação nos imóveis rurais trazem um enorme desafio de conhecimento e gestão ambiental. Qual a expressão dessas áreas preservadas em cada bioma? O que abrigam em termos de biodiversidade? Quais serviços ambientais garantem e em benefício de quem? Quanto carbono estocam? Que problemas e ganhos ambientais trazem às atividades produtivas e às regiões onde se localizam? Tudo isso precisa ser estudado, monitorado e gerido.

Esse enorme esforço de preservação nos imóveis rurais beneficia toda a Nação. Hoje, a responsabilidade e os custos de imobilizar e manter essas áreas dedicadas à preservação recaem inteiramente sobre os produtores, sem contrapartida da sociedade, principalmente dos consumidores urbanos.

E o que queremos nós, os produtores? Queremos ser reconhecidos como aliados das questões ambientais, e não como um vilões sem responsabilidades.

É tempo de reconhecer esse esforço e reparar as injustiças.

Fonte: https://www.noticiasagricolas.com.br/noticias/agronegocio/201220-em-10-anosomundo-podera-nao-ter-p...

Anderson Nunes de Carvalho Vieira
  • Anderson Nunes de Carvalho Vieira Economista
  • Bacharel em Ciências Econômicas (2013) e Mestre em Agronegócios e Desenvolvimento Regional (2015) ambos pela Universidade Federal de Mato Grosso - UFMT. Também é Especialista em Ciência da Religião...

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